A associação de Judas com a traição está tão arraigada na mentalidade cristã que os dicionários trazem o nome do apóstolo como sinônimo de traidor.
Relatado no polêmico Evangelho Segundo Judas, Benjamin Iscariotes, supostamente o primogênito do apóstolo, conta quem foi o pai, como este realmente se sentia a respeito de Cristo e como viveu até morrer –com cerca de 70 e crucificado, não cometendo suicídio logo após a condenação de Jesus, como diz o “Evangelho Segundo Mateus”.
O evangelho de Judas, narrado por esse suposto primogênito, é recontado através da colaboração entre o escritor e político britânico Jeffrey Archer e o professor e especialista na Bíblia Francis J. Moloney –recomendado a Archer por ninguém menos que o cardeal Carlo Maria Martini –que disputou com Joseph Ratzinger (o papa Bento 16) a escolha para a o cargo deixado por João Paulo 2º.
Os autores classificam a tentativa de “humanizar” e redimir Judas como um projeto “arrojado” e “despretensioso” –leia-se, sem a pretensão de que o livro pudesse alterar a estrutura de quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) da Bíblia. O volume é apresentado como um “livro sagrado”: capa imitando couro, bordas douradas nas páginas e marcador de fita.
O Judas do evangelho recontado era inicialmente seguidor do profeta João Batista. Depois do primeiro contato com Jesus, Judas torna-se seu discípulo, movido “por sua interpretação dos textos sagrados de Israel”, e dizia a todos que o “Messias prometido” havia sido encontrado. Mesmo assim, discorda de certos atos de Jesus, como o de permitir que Maria, de Betânia, lavasse e enxugasse os pés de Cristo com os próprios cabelos.
Ao longo do livro, Judas deixa de ver Jesus como o Messias para vê-lo como apenas um “homem de Deus”, mas mantém-se como um seguidor. Mesmo assim, percebe o cerco se fechando. Tenta evitar que Cristo crie problemas demais para si mesmo e fica amigo de um escriba de Jerusalém –que, na verdade, não tem interesse nenhum em que Jesus continue a desafiar o Sinédrio (tribunal permitido por Roma para julgar e punir os judeus segundo as leis judaicas).
A traição de Judas acaba se revelando como um excesso de zelo: fica amigo do escriba, achando que o convenceu a permitir que Jesus saia de Jerusalém e volte para a Galiléia, e o revela aos soldados beijando-o no rosto (imagem retratada artisticamente em todas as épocas pelas mais diversas escolas).
Ele próprio, no entanto, é surpreendido pela ação dos soldados e do escriba. “Judas estava escandalizado ao ver que dentre o grupo que viera para prender Jesus encontrava-se o escriba que declarara ser seu amigo (…) Judas investiu contra ele, seus punhos erguidos enquanto gritava: 'Tu me traíste.' Mas dois dos soldados o agarraram pelos braços e o detiveram.” Vê-se que Judas, se traiu, também foi traído.
Outros detalhes envolvidos no episódio da traição cometida por Judas, como o das 30 moedas de prata que teriam sido recebidas pelo apóstolo (e que não encontra respaldo “em nenhum estudo sério do Novo Testamento”), são explicados no glossário no fim do livro.
O texto tem trechos destacados em vermelho –citações diretas ou paráfrases dos textos bíblicos. Para o leitor mais cético, se quiser conferir se os trechos estão mesmo na Bíblia, nas margens das páginas há as indicações dos livros, capítulos e versículos do texto bíblico.
Fonte: O Verbo