“Ateus também podem desenvolver valores sagrados”, afirma o pesquisador Philip Portier. Leia na íntegra

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O crescimento do número de ateus e agnósticos, também conhecidos como probabilistas, tem chamado a atenção de estudiosos e gerado debates a respeito de uma possível transformação social causada por essa mudança de paradigma.

Numa entrevista à revista francesa La Vie, o diretor da Escola Prática de Altos Estudos e do Grupo Sociedades, Religiões e Laicidades, Philip Portier, afirmou que “os ateus produzem significações religiosas”, como forma de manter códigos de ética e comportamento.

“Nota-se que entre os ateus alguns valores não são negociáveis. O que significa que não nos encontramos mais no relativismo absoluto. A título de exemplo, os direitos da consciência são absolutizados. Assim como os direitos da criança e da mulher. Esses valores não remetem a elementos sobrenaturais. Mas elas aparecem como valores sagrados não negociáveis para pessoas que recusam a crença em Deus”, pontua Portier.

Entretanto, a preocupação dos ateus não tem sido apenas em sua busca pessoal por conhecimento e autonomia. Há segundo Portier, setores do movimento ateísta que buscam formas de fazer o Estado interferir indiretamente nas religiões.


“Militantes de organizações como a União dos Ateus, a União Racionalista ou a Federação Nacional do Livre Pensamento defendem um modelo de religião laica. Trata-se de um Estado que fixa normas de existência com uma escola que é exclusivamente laica. Esta religião pode desenvolver uma moral laica, difundida pela escola. Ela engloba, portanto, a sociedade em seu conjunto. Nesse sistema de religião laica não se procura necessariamente suprimir autoritariamente o fenômeno religioso. Ao contrário, quer-se privatizá-la de maneira rigorosa: a religião é expulsa para a esfera privada”, afirma.

A ideia, porém, não é compartilhada de forma unânime, segundo Portier: “Muitos ateus comuns não somente não compartilham esta visão, como a ignoram! Eles simplesmente se afastam das instituições religiosas que lhes parecem representar um Deus autoritário. Ou seja, esses ateus também podem desenvolver valores sagrados fundados na autonomia do sujeito […] sem que haja nisso necessariamente uma referência a um modelo de tipo laico”.

Confira abaixo, a íntegra da entrevista concedida por Philip Portier à revista La Vie, e reproduzida no site do Instituto Humanistas Unisinos:

Podemos afirmar que o número de ateus está aumentando?

Sim. De modo geral, o número dos sem religião aumenta, tanto na França como em outros lugares da Europa. É uma certeza. Por sem religião entendo pessoas que se declaram sem afiliação. No interior desse grupo, a parte daqueles que se dizem sem Deus também está aumentando. No total, assistimos, portanto, a um distanciamento com a crença em Deus.

Quanto são eles?

Os números variam em função de questões específicas. Na França, 28% a 30% da população se diz sem Deus. Entre os jovens, entre 18 e 30 anos, a fração sobe para 35%.

E o número de agnósticos também está aumentando?

Sim, mas melhor que falar de agnosticismo, um termo que remete à filosofia do Iluminismo e a uma postura de dúvida do religioso, prefiro os termos possibilismo ou probabilismo. Para essas pessoas, probabilistas, Deus talvez exista. E esta zona cinzenta se desenvolve. É, talvez, a população mais importante. Eles são em torno de 35-40% da população.

E os crentes?

Haverá 25% a 30% que estão certos de que Deus existe. Mas para esses crentes, Deus não é sempre o mesmo. Não obedece necessariamente às regras da religião instituída.

Os ateus sempre têm o mesmo tipo de descrença?

Não. Entre aqueles que dizem “eu não creio em Deus” e aqueles que dizem não ter nenhuma crença espiritual, há uma brecha considerável. Ora, entre os europeus há muitas vezes um espiritualismo difuso, que não se identifica com o materialismo tradicional que está na origem do ateísmo. E nas pesquisas qualitativas feitas com ateus, encontramos muitas vezes a ideia de que o homem estaria dotado de um espírito. O que remete a uma possível ideia de um espírito que ultrapassaria os nossos próprios corpos.

Esse ponto, que é muito importante, permite distinguir dois grupos. Um primeiro, que se encontra do lado do materialismo e que é fortemente militante, por exemplo, na Livre Pensamento. Há também um ateísmo mais popular que desconfia das Igrejas, mas que não quer abraçar todos os pensamentos do ateísmo militante.

Os ateus também produzem crenças?

A questão é saber se o fato de se dizer ateu levará necessariamente a uma visão desprovida de qualquer significação religiosa. Na sociologia das religiões, há teses que se opõem. Segundo uma dessas teses, defendida por pesquisadores italianos, os ateus produzem significações religiosas. Mais precisamente, eles sacralizariam normas de existência que fazem duvidar da possibilidade de uma crítica. Assim, haveria uma religião civil e mesmo uma religião política para qualificar alguns valores que são promovidos pelos ateus fora de qualquer crença em Deus. Também podemos falar de um “monoteísmo de valores” a propósito das populações que erigem em valores sagrados o princípio da autonomia do sujeito, o que permite fundar sua própria existência.

Eles não são, portanto, relativistas o tempo todo?

Nota-se que entre os ateus alguns valores não são negociáveis. O que significa que não nos encontramos mais no relativismo absoluto. A título de exemplo, os direitos da consciência são absolutizados. Assim como os direitos da criança e da mulher. Esses valores não remetem a elementos sobrenaturais. Mas elas aparecem como valores sagrados não negociáveis para pessoas que recusam a crença em Deus.

É possível falar de uma religião laica?

A noção de “religião laica” remete a uma concepção muito particular da existência política. Nem todos os ateus a compartilham necessariamente. Mas tipicamente, os militantes de organizações como a União dos Ateus, a União Racionalista ou a Federação Nacional do Livre Pensamento defendem um modelo de religião laica. Trata-se de um Estado que fixa normas de existência com uma escola que é exclusivamente laica. Esta religião pode desenvolver uma moral laica, difundida pela escola. Ela engloba, portanto, a sociedade em seu conjunto. Nesse sistema de religião laica não se procura necessariamente suprimir autoritariamente o fenômeno religioso. Ao contrário, quer-se privatizá-la de maneira rigorosa: a religião é expulsa para a esfera privada.

Mas nem todos os ateus compartilham esta visão restritiva da religião?

Muitos ateus comuns não somente não compartilham esta visão, como a ignoram! Eles simplesmente se afastam das instituições religiosas que lhes parecem representar um Deus autoritário. Ou seja, esses ateus também podem desenvolver valores sagrados fundados na autonomia do sujeito: os direitos da criança, a possibilidade de as mulheres escolherem sua própria existência, etc., sem que haja nisso necessariamente uma referência a um modelo de tipo laico. Pois alguns ateus são favoráveis a uma ética republicana pura. Os outros aderem antes a uma ética liberal extrema, em oposição à republicana.

Para os ateus, o indivíduo constrói sua própria existência, de maneira autônoma?

Sim e é por esta razão que eles são favoráveis às reformas sociais. Eles defenderam a contracepção e o aborto nos anos 1960 e 1970, depois a procriação assistida nos anos 1980. Hoje, eles são favoráveis à eutanásia e ao casamento gay. A questão de fundo é que defendem o fato de que o indivíduo deve poder construir sua própria existência de maneira autônoma.

Entre os crentes, o princípio da organização da vida não é o mesmo. Eles encontram uma referência em normas superiores. Eles cultivam a ideia de uma transcendência e de uma moralidade que foge à liberdade do sujeito. O que acaba por fundar uma visão que desconfia da evolução não controlada.

Os católicos têm a fama de serem majoritariamente de direita. Os ateus são mais de esquerda?

Quanto mais longe se estiver do polo religioso, mais se é ateu, mais se vota na esquerda. Quanto mais afastado da crença em Deus, mais se é favorável à evolução das legislações sociais. Outra correlação: quanto mais jovem for, mais se é aberto a reformas sociais. Ao contrário, quanto mais perto se estiver do polo religioso, portanto crente e membro de uma religião institucionalizada, mais se vota na direita.

Mas, atenção! Eu insisto novamente no desenvolvimento de zonas cinzentas, marcadas pela incerteza, que está em sintonia com a ultramodernidade. Nossa sociedade não é mais tão dividida que em outros tempos entre ateus militantes e católicos da certeza.

No entanto, há uma clivagem muito clara entre crentes e ateus em relação a temas sociais. Sim, sempre há uma militância ateia em oposição a uma militância religiosa. E nesse momento, dois campos dão o tom nos debates públicos. Eu vou usar o termo “guerra de culturas”. Mais precisamente, de um lado nós temos a cultura da autonomia do sujeito. Do outro, uma cultura da normatividade. E entre essas duas culturas, há diferenças muito importantes sobre a maneira de conduzir uma sociedade.

Qual polo predomina?

Predomina mais o polo ateu. A tendência dominante é a do relativismo e do afastamento das populações das normas religiosas. Isso não é necessariamente uma hostilidade para com as Igrejas, mas considera-se cada vez mais que os indivíduos podem levar sua existência como bem lhes aprouver. Esta secularização dos comportamentos e a autonomização das consciências é hoje mais importante que o outro polo, que, entretanto, resiste bem. Tem-se também a impressão de que o governo está se afastando cada vez mais do polo religioso. Eu diria que o atual governo pende para o lado do polo da não-crença e para o lado do princípio da autonomia, que é dominante.

Mas esse fato remete a processos de socialização diferentes. O primeiro, bem entendido, que os socialistas romperam, há muito tempo, qualquer relação com o polo religioso. E as classes médias bem formadas e bem representadas dos socialistas continuam a afastar esse governo do polo religioso e, portanto, de uma visão moral da lei.

O que muda com esse governo é que ele vai mais longe que em outros tempos na afirmação do princípio da autonomia. Eu recordo que as principais reformas sociais, até agora, foram votadas pela direita: a contracepção em 1967, o aborto em 1975, a bioética em 1994, a eutanásia em 2005. Agora o governo socialista propõe uma espécie de ruptura – a ponto de falar de “mudança de civilização” – em relação a questões como a filiação e a morte. É preciso levar em conta essas mudanças.

E as Igrejas? Elas reagem mais fortemente que antes?

Sim, é o outro elemento desta evolução. A Igreja católica intervém de maneira mais militante que no passado. Por quê? O corpo episcopal e os sacerdotes mudaram. Eles se tornaram mais identitários e estão mais apegados aos seus princípios morais. Eles sentem também que a sociedade, especialmente entre os probabilistas, não está segura da necessidade de desordenar a tal ponto as regras tradicionais da sociedade.

Por Tiago Chagas, para o Gospel+

13 COMENTÁRIOS

    • Certo. Toda linha de raciocínio atéia dá num paradoxo,numa eterna incoerência, mesmo.
      Ex.:
      …”defendem um modelo de religião laica”.
      – Religião vem de RE- LIGARE, “ligar novamente’ o homem ao “lugar” de nde ele veio, ou seja, à Deus. Logo, ”religião laica” é uma sandice total.
      E outra : por que eu iria aceitar valores morais ou éticos de terceiros feitos de carne e osso, simples mortais iguais a mim ? Veja a cena : – “Vc não sabe que é errado roubar ?” R: _ “Quem disse ?”…. – ” O Grande Senador Renan Calheiros !” R : – “Ora, vá catar coquinhos !”
      Eu só obedeço às regras e ordenanças morais, éticas e espirituais do único Ser que sei que é, muito certamente, superior à mim : Meu Criador , O Senhor do Céu e da terra,

      • PURA VERDADE IRMÃO JOÃO BATISTA, HAJA VISTO QUE O MUNDO CIVILIZADO, DEPOIS DE SEU PERIODO DAS TREVAS, USA COMO FONTE DE LEIS CIVIS ETICAS MORAIS AS SANTAS ESCRITURAS, TAIS COMO NÃO ROUBAR CIVIL, NÃO ADULTERARÁS MORAL, NÃO DESEJARAS AS COISAS DE TEU IRMÃO ETICA, PARA ONDE OLHARMOS NOSSO DEUS TEM A SUA MÃO, QUE OS ATEUS PODEM FAZER QUE JA NÃO ESTEJA FEITO?

      • Roubar é errado porque você está fazendo mal ao próximo. Essa é a ideia, bem simples, se interfere negativamente na vida de alguém que não está de acordo, é “errado”, se você não compreende, desculpe-me, mas você é danoso a sociedade.

    • Diga isso ao pretenso ”pesquisador”…Quem sabe ele aprende alguma coisa com vc ?

      …..Agora sério, você tem interesse, realmente, em descobrir a verdade sobre questões fundamentais (e decisivas!) ? Sinceramente?

      Então considere isto : Os incrédulos que negam a existência da Verdade Absoluta, também não param de se irar contra as mentiras imperantes no mundo. RESPONDA SE PUDER: Qual seria a lei científica que explicaria, dentro da sua alma e da sua mente, essa sede de justiça ?
      Por que a mentira e a injustiça te revoltam ?
      Ou vc acha que a moral também está em algum ‘gen’ desconhecido ?
      Qual seria a lei científica que explicaria, dentro da sua alma e da sua mente, essa sede de justiça, essa abominação da mentira, se não existisse uma Verdade Absoluta ?
      Na natureza, uma criatura não nasce com desejos, a menos que exista a respectiva satisfação desse desejo. Por isso o bebê sente fome : existe a comida. Se um patinho quer nadar, existe a água. Se um ser humano sente desejo sexual, existe o sexo. Se um ser humano sente um desejo que nenhuma experiência no mundo pode satisfazer, é porque foi criado para outro mundo.

      • Mas o problema é que todas as religiões não podem estar certas ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.
        Logo, extraindo as lendas, mitos e crendices, sobra o único FATO HISTÓRICO, JESUS.
        Mas játinha te dito esto antes. Só que não adianta, não é ?

      • Mas o problema é que todas as religiões não podem estar certas ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.
        Logo, extraindo as lendas, mitos e crendices, sobra o único FATO HISTÓRICO, JESUS.
        Mas já tinha te dito isto antes. Só que não adianta, não é ?

    • Ôôô, dificuldade !…´Não importa quantas pessoas diziam que a terra era plana, quadrada, côncava ou convexa, ela nunca deixou de ser redonda. Assim também com a Verdade, entendeu ?

  1. não existe ateu na prisão, ateu não vive em bar bebendo, não faz protestos e não mata ninguem na guerra….;
    não conheço nenhum ateu, atoa….sao todos boa gente, cultos e inteligentes…~
    acreditar e uma questão de principio…..não creio e ponto final….não vou bringar com ninguem que acredita…..mas os crentes enchem o nosso saco!…viva a liberdade de crença….90% das guerras mundiais, foram de causas religiosas…….e poucas por divisão territorial….

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